COLUNA ESPECIAL
Autor: Renan Mendes*
Nenhuma generalidade vale absolutamente
nada, incluindo esta.
Oliver Wendell Holmes.
Atualmente,
é comum para alguns profissionais responsáveis pelo processo de treinamento no
futebol a idéia de que, ao simplesmente utilizar-se de jogos, ou os famosos
“jogos reduzidos”, nas sessões de treino, está treinando conforme o princípio
da especificidade.
De acordo com
esse princípio, os aspectos a serem treinados devem ter uma relação direta com
o jogo (estrutura do movimento, estrutura de carga, natureza das tarefas,
etc.), com o objetivo de viabilizar a maior transferência possível das
aquisições operadas no treino para o contexto específico (o jogo de futebol)
(GARGANTA, 1997 e LEITÃO, 2004 apud MENDES et al., 2014).
Com
base nos princípios da periodização tática, Frade (2006, apud Moura, 2008),
refere que o processo de treino deve considerar sempre a especificidade do
jogo, acrescentando que não há melhor forma de trabalhar, se esta for em
consonância com o que se passa durante a partida de futebol. Entretanto, há
algo mais para além disso.
No conceito de
“Periodização Tática”, não basta uma especificidade ao jogo de futebol. Mais do
que isso, torna-se indispensável uma sub-especificidade ao Modelo de Jogo, onde
a aquisição e manutenção da “forma desportiva” será induzida por um conceito
que objetiva a equipe em patamares de rendimento, em função do “jogar” de uma
determinada forma (FARIA, 1999, apud Figueiras, 2004). Esta especificidade (do
nosso jogo) contextualiza tudo o que se faz. Nesta metodologia é considerado
Específico tudo aquilo que está relacionado com o Modelo de Jogo que estamos a
criar (MENDONÇA, 2013).
Segundo
Guilherme Oliveira (apud Moura, 2008), as situações de treino só são
verdadeiramente específicas quando houver uma permanente e constante relação
entre os componentes tático-técnicas individuais e coletivas, psico-cognitivas,
físicas e coordenativas, em correlação permanente com o modelo de jogo e os
respectivos princípios que lhe dão corpo.
Em
síntese, o modelo de jogo tem relação com o modo como se pretende jogar (MENDES
et al., 2014). De acordo com Guilherme Oliveira (s/data), entende-se Modelo de
Jogo como uma idéia de jogo constituída por princípios, sub-princípios e
sub-princípios dos sub-princípios..., representativos dos diferentes momentos
do jogo (momento ofensivo, momento defensivo, transição ofensiva e transição
defensiva), que se articulam entre si, manifestando uma organização funcional
própria, ou seja, uma identidade.
Portanto, só
existe especificidade quando as situações de treino são realmente específicas e
não apenas situacionais, ou seja, retira-se do jogo idealizado/modelo de jogo
aquilo que é mais importante e transporta-se para o treino, sendo este
constituído por ações desejadas para o jogo, obedecendo às diretivas da matriz
de jogo (MOURA, 2008).
O
treinador de futebol deve procurar então, uma forma de transmitir a sua idéia
de jogo, utilizando uma linguagem acessível a todos os elementos da equipe e
adotando uma operacionalização coerente, em conformidade com o seu modelo de
jogo e com os princípios de jogo inerentes a esse modelo (FRADE, 2006, apud
Moura, 2008).
Portanto, o
treinador deve criar exercícios específicos para a criação de hábitos e padrões
comportamentais, de modo a chegar ao “jogar” que se pretende (FRADE, 2006, apud
MOURA, 2008). Portanto, mais do que se treinar de acordo com a especificidade
do jogo de futebol, é necessário que se treine de acordo com o modelo de jogo
adotado, objetivando à criação de padrões comportamentais a nível individual,
setorial, inter-setorial e coletivo, que irá se manifestar em cada um dos
momentos do jogo.
REFERÊNCIAS
FIGUEIRAS, L. M. C. Periodização tátctica: um “conceito com
“futebóis” de muitos “rostos”. 2004. 128 f. Monografia (Curso de Desporto e
Educação Física) – Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física,
Universidade do Porto.
OLIVEIRA, J. G. Organização do jogo de uma equipa de
futebol. Aspectos metodológicos na abordagem da sua organização estrutural
e funcional. (sem data).
MENDES, R.; BESEN, R.; RAMOS, M.
H. K. P. Abordagens metodológicas de treinamento para o desenvolvimento da
inteligência de jogo do jogador de futebol. EFDeportes.com,
Revista Digital.
Buenos Aires, Año 18, Nº 189, Febrero de 2014. link < http://www.efdeportes.com/efd189/desenvolvimento-da-inteligencia-do-jogador-de-futebol.htm>.
MENDONÇA, P. Modelo de jogo do FC Bayern de Munique. 2013.
Nenhum comentário:
Postar um comentário