sábado, 17 de maio de 2014

O PRINCÍPIO DA ESPECIFICIDADE NA OPERACIONALIZAÇÃO DO MODELO DE JOGO

 

COLUNA ESPECIAL

Autor: Renan Mendes*



            Nenhuma generalidade vale absolutamente nada, incluindo esta.
Oliver Wendell Holmes.


            Atualmente, é comum para alguns profissionais responsáveis pelo processo de treinamento no futebol a idéia de que, ao simplesmente utilizar-se de jogos, ou os famosos “jogos reduzidos”, nas sessões de treino, está treinando conforme o princípio da especificidade.

De acordo com esse princípio, os aspectos a serem treinados devem ter uma relação direta com o jogo (estrutura do movimento, estrutura de carga, natureza das tarefas, etc.), com o objetivo de viabilizar a maior transferência possível das aquisições operadas no treino para o contexto específico (o jogo de futebol) (GARGANTA, 1997 e LEITÃO, 2004 apud MENDES et al., 2014).

            Com base nos princípios da periodização tática, Frade (2006, apud Moura, 2008), refere que o processo de treino deve considerar sempre a especificidade do jogo, acrescentando que não há melhor forma de trabalhar, se esta for em consonância com o que se passa durante a partida de futebol. Entretanto, há algo mais para além disso.

No conceito de “Periodização Tática”, não basta uma especificidade ao jogo de futebol. Mais do que isso, torna-se indispensável uma sub-especificidade ao Modelo de Jogo, onde a aquisição e manutenção da “forma desportiva” será induzida por um conceito que objetiva a equipe em patamares de rendimento, em função do “jogar” de uma determinada forma (FARIA, 1999, apud Figueiras, 2004). Esta especificidade (do nosso jogo) contextualiza tudo o que se faz. Nesta metodologia é considerado Específico tudo aquilo que está relacionado com o Modelo de Jogo que estamos a criar (MENDONÇA, 2013).

Segundo Guilherme Oliveira (apud Moura, 2008), as situações de treino só são verdadeiramente específicas quando houver uma permanente e constante relação entre os componentes tático-técnicas individuais e coletivas, psico-cognitivas, físicas e coordenativas, em correlação permanente com o modelo de jogo e os respectivos princípios que lhe dão corpo.

            Em síntese, o modelo de jogo tem relação com o modo como se pretende jogar (MENDES et al., 2014). De acordo com Guilherme Oliveira (s/data), entende-se Modelo de Jogo como uma idéia de jogo constituída por princípios, sub-princípios e sub-princípios dos sub-princípios..., representativos dos diferentes momentos do jogo (momento ofensivo, momento defensivo, transição ofensiva e transição defensiva), que se articulam entre si, manifestando uma organização funcional própria, ou seja, uma identidade.

Portanto, só existe especificidade quando as situações de treino são realmente específicas e não apenas situacionais, ou seja, retira-se do jogo idealizado/modelo de jogo aquilo que é mais importante e transporta-se para o treino, sendo este constituído por ações desejadas para o jogo, obedecendo às diretivas da matriz de jogo (MOURA, 2008).

            O treinador de futebol deve procurar então, uma forma de transmitir a sua idéia de jogo, utilizando uma linguagem acessível a todos os elementos da equipe e adotando uma operacionalização coerente, em conformidade com o seu modelo de jogo e com os princípios de jogo inerentes a esse modelo (FRADE, 2006, apud Moura, 2008).

Portanto, o treinador deve criar exercícios específicos para a criação de hábitos e padrões comportamentais, de modo a chegar ao “jogar” que se pretende (FRADE, 2006, apud MOURA, 2008). Portanto, mais do que se treinar de acordo com a especificidade do jogo de futebol, é necessário que se treine de acordo com o modelo de jogo adotado, objetivando à criação de padrões comportamentais a nível individual, setorial, inter-setorial e coletivo, que irá se manifestar em cada um dos momentos do jogo.

REFERÊNCIAS

FIGUEIRAS, L. M. C. Periodização tátctica: um “conceito com “futebóis” de muitos “rostos”. 2004. 128 f. Monografia (Curso de Desporto e Educação Física) – Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto.

OLIVEIRA, J. G. Organização do jogo de uma equipa de futebol. Aspectos metodológicos na abordagem da sua organização estrutural e funcional. (sem data).

MENDES, R.; BESEN, R.; RAMOS, M. H. K. P. Abordagens metodológicas de treinamento para o desenvolvimento da inteligência de jogo do jogador de futebol. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 18, Nº 189, Febrero de 2014. link < http://www.efdeportes.com/efd189/desenvolvimento-da-inteligencia-do-jogador-de-futebol.htm>.

MENDONÇA, P. Modelo de jogo do FC Bayern de Munique. 2013.

MOURA, H. L. A organização de jogo de uma equipa de futebol: uma abordagem sistêmica para a construção de uma forma de jogar. 2008. 91 f. Monografia (Licenciatura em Educação Física) – Faculdade de Desporto, Universidade do Porto.



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