Coluna Especial
Autor: Renan Mendes*
Quem não se
atrever a observar adequadamente a realidade, assumida pelas características
dos seus próprios factos,correrá o risco de viver na escuridão distinta de
querer e não poder evoluir porque ou os nossos modelos de explicação da
realidade estão adequados e conseguem explicar as realidades todas, ou no caso
de não se adequarem a elas, o que está errado são os nossos conceitos teóricos
e não a realidade.
(Monge da Silva, 1989
citado por Oliveira, 1991)
Durante séculos, os cientistas
pensaram e trabalharam num universo de referências onde o objetivo do esforço
científico foi a descoberta de leis deterministas permanentes e imutáveis,
procurando uma causa para os efeitos observáveis (Stacey, 1995, apud Garganta,
1997). Percebe-se que a ciência ocidental, ao longo do tempo, orientou-se e
edificou-se sobre os contributos do racionalismo clássico, herdado de
Aristóteles e desenvolvido por Descartes (Durand,1979, apud Gomes, 2008).
Descartes,
de nome latim Renatus Cartesius (daí ser filosofia cartesiana), contribuiu
decisivamente para os rumos da ciência moderna ao escrever “O Discurso sobre o
Método”, onde propôs quatro princípios de pensamento (Descartes, 2008, p. 25,
apud Tobar, 2013, p. 24):
1) Jamais aceitar algo como
verdadeiro sem saber com evidência que seja tal; isto é, evitar a precipitação
e a prevenção, e nada mais incluir em meus juízos, além do que se apresente tão
clara e tão distintamente ao meu espírito que eu não tenha nenhuma ocasião de
pô-lo em dúvida.
2) Dividir cada dificuldade
examinada em tantas partes quantas for possível e for necessário para melhor
resolvê-las.
3) Conduzir pela ordem os meus
pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de se conhecer,
para subir aos poucos, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos
e supondo até haver certa ordem entre os que não precedem naturalmente uns aos
outros.
4) Fazer em toda parte enumerações
tão completas e revisões tão gerais, que me de assegure de nada omitir.
Em
outras palavras, Morin (2011) refere que todo conhecimento opera por seleção de
dados significativos e rejeição de dados não significativos, ou seja, separa
(distingue ou disjunta) e une (associa, identifica); hierarquiza (o principal,
o secundário) e centraliza (em função de um núcleo de noções-chave); essas
operações, que se utilizam da lógica, são comandadas por paradigmas, ou seja,
“princípios ocultos que governam nossa visão das coisas e do mundo sem que
tenhamos consciência disso” (p. 10). Complementando esta idéia, Cunha (2004)
citado em Casarin e Esteves (2010) diz que paradigma é uma realização
científica que, durante algum tempo, forneceu modelos de problemas e soluções
para uma comunidade de profissionais.
Seguindo esta
linha de pensamento, o caminho da investigação segue o pensamento analítico,
por isso assistimos à institucionalização do positivismo segundo o qual os
objetos são reduzidos e isolados para tentar entender sua complexidade (Gomes,
2008). Concorrendo com essa idéia, Leitão (2009) diz que a ciência, durante
muito tempo, buscou o entendimento dos fenômenos através da sua fragmentação
(divisão em partes/fragmentos), que cada vez menores, buscavam ser compreendidos
na tentativa de através da união dos achados sobre suas partes, entender o que
se imagina ser o todo (reducionismo). Também Carvalhal (2002, apud Alves, 2007)
vai de encontro com os autores acima citados, dizendo que a ciência guiou-se
por uma perspectiva cartesiana, com a tendência de fragmentar o todo em partes,
buscando assim um conhecimento mais especializado.
De
acordo com Morin (2011) vivemos sob o império dos princípios de disjunção, de
redução e de abstração, cujo conjunto constitui o que o autor chama de
“paradigma de simplificação”. Paradigma esse criado por Descartes, ao separar o
sujeito pensante (res cogitans) e a coisa entendida (res extensa), e ao colocar
as idéias “claras e distintas” como princípio de verdade, ou seja, o próprio
pensamento disjuntivo. Segundo Guilherme Oliveira (2004) as idéias subjacentes
a esses constructos procuravam a divisão e redução dos fenômenos em partes,
para conhecê-los mais facilmente e atuar sobre eles, no entanto, eram
desconsideradas a interação das relações.
Portanto,
a simplificação é realizada por redução e disjunção, assim os objetos são
isolados entre si e separados do seu meio envolvente, depois são reduzidos a
processos elementares, leis, mecanismos, forças, ações, densidades. O objeto é
entendido de forma autônoma, substancial, independentemente do seu meio
ambiente, onde ele pode ser conhecido somente a partir das suas qualidades
intrínsecas. Estas qualidades intrínsecas são as suas propriedades, e que de
acordo com o pensamento cartesiano, a partir do conhecimento da constituição do
objeto é possível prever o seu comportamento nas mais diversas situações
(Montenegro, 2008). Complementando esta idéia, Moreno (2010) citado em Tobar
(2013), diz que, para além de analisar e interpretar os objetos separadamente
em relação à seu contexto específico, este modelo de pensamento não entende as
partes como unidades sujeitas a interações com as outras partes e com seu meio
ambiente, pelo contrário, são perspectivadas como partes independentes e
passíveis de serem analisadas sem levar em conta o seu conjunto (totalidade e
envolvimento) a que pertencem.
Desta
forma, Montenegro (2008) pretende evidenciar que o objeto é compreendido na sua
interação com o meio, sendo que a visão cartesiana se encontra distante de uma
perspectiva ecológica. Assim, segundo Morin (2011, p. 12), chega-se a
inteligência cega. “A inteligência cega destrói os conjuntos e as totalidades,
isola todos os seus objetos do seu meio ambiente. Ele não pode conceber o elo
inseparável entre o observador e a coisa observada. As realidades-chave são
desintegradas”.
Muitos
caminhos e possibilidades surgiram através dessa perspectiva e serviram de
ponto de partida para investigações de problemas que hoje são foco de outra
forma de se entender a complexidade dos fenômenos. Entretanto, mesmo que tenham
sido inegáveis as contribuições do reducionismo, novas perspectivas surgiram
como alternativa para dar novas respostas aos problemas (Leitão, 2009). O
paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por vários anos,
durante as quais modelou a nossa sociedade ocidental moderna e influenciou
significativamente o restante do mundo (Capra, 1996).
Entretanto, a
forma redutora de interpretar os problemas complexos e os procedimentos
abstratos tem caído em falência metodológica (Durand, 1979, apud Gomes, 2008),
que segundo Garganta (1997) se iniciou mais precisamente na década de 90 e pode
ser ilustrado pelo crescente recurso aos conceitos de sistema,
auto-organização, caos, fractal, etc. De acordo com Gomes (2008) verifica-se a
aceitação e credibilidade crescente da Teoria dos Sistemas e do Pensamento
Ecológico, que desenvolve uma linguagem que transcende o reducionismo
cartesiano.
A pertinência
desta questão pode parecer abstrata ou fútil para o estudo do fenômeno futebol.
Contudo, a adoção dos pressupostos convencionais condiciona o modo como
pensamos, interpretamos e interagimos na realidade e por isso, no Futebol
(Gomes, 2008).
REFERÊNCIAS
Alves, S. M. J. D. “Rotatividade de jogadores” no futebol. Uma relação
<umbilical> do como treinar com o como <jogar>. 2007. 440 f.
Monografia (Licenciatura em Desporto e Educação Física) – Faculdade de
Desporto, Universidade do Porto.
Capra, F. A teia da vida. São Paulo: Editora Cultrix, 1996.
Casarin, R. V.; Esteves, L. A. S.
Para se ganhar no futebol precisa-se treinar, mas o que treinar?. EFDeportes.com, Revista Digital
– Buenos Aires, Año 14, Nº 142, Marzo de 2010.
Garganta, J. Modelação táctica do jogo de
futebol: estudo da
organização da fase ofensiva em equipas de alto rendimento. 1997.
318 f. Tese (Doutorado em Ciências do Desporto e de Educação Física) –
Faculdade de Ciência do Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto.
Gomes, M. O desenvolvimento do jogar segundo a Periodização Táctica. MCSports,
2008.
Leitão, R. A. A. O jogo de
futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência
de jogo, do ponto de vista da complexidade. Campinas, 2009. 230 f. Tese
(Doutorado em Educação Físic,a) – Faculdade de Educação Física, Universidade
Estadual de Campinas.
Morin, E. Introdução ao
pensamento complexo. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011.
Montenegro, A. J. S. A necessidade de aumentar a densidade de
princípios de (Inter)acção na construção complexa de cada <jogar>. 2008.
254 f. (Licenciatura em Desporto e Educação Física) – Faculdade de Desporto,
Universidade do Porto.
Oliveira, J. G. Conhecimento Específico em Futebol. 2004. 197 f. Dissertação
(Mestre em Ciências do Desporto) – Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação
Física, Universidade do Porto.
Tobar, J. B. Periodização Tática: explorando sua organização
concepto-metodológica. 2013. 436 f. Monografia (Bacharel em Educação Física) –
Escola de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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