sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O PARADIGMA CARTESIANO/PARADIGMA DE SIMPLIFICAÇÃO: SUAS CONSEQUÊNCIAS E SUA FALÊNCIA METODOLÓGICA

Coluna Especial
Autor: Renan Mendes*
Quem não se atrever a observar adequadamente a realidade, assumida pelas características dos seus próprios factos,correrá o risco de viver na escuridão distinta de querer e não poder evoluir porque ou os nossos modelos de explicação da realidade estão adequados e conseguem explicar as realidades todas, ou no caso de não se adequarem a elas, o que está errado são os nossos conceitos teóricos e não a realidade.
(Monge da Silva, 1989 citado por Oliveira, 1991)


           Durante séculos, os cientistas pensaram e trabalharam num universo de referências onde o objetivo do esforço científico foi a descoberta de leis deterministas permanentes e imutáveis, procurando uma causa para os efeitos observáveis (Stacey, 1995, apud Garganta, 1997). Percebe-se que a ciência ocidental, ao longo do tempo, orientou-se e edificou-se sobre os contributos do racionalismo clássico, herdado de Aristóteles e desenvolvido por Descartes (Durand,1979, apud Gomes, 2008).

            Descartes, de nome latim Renatus Cartesius (daí ser filosofia cartesiana), contribuiu decisivamente para os rumos da ciência moderna ao escrever “O Discurso sobre o Método”, onde propôs quatro princípios de pensamento (Descartes, 2008, p. 25, apud Tobar, 2013, p. 24):

1) Jamais aceitar algo como verdadeiro sem saber com evidência que seja tal; isto é, evitar a precipitação e a prevenção, e nada mais incluir em meus juízos, além do que se apresente tão clara e tão distintamente ao meu espírito que eu não tenha nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida.
2) Dividir cada dificuldade examinada em tantas partes quantas for possível e for necessário para melhor resolvê-las.
3) Conduzir pela ordem os meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de se conhecer, para subir aos poucos, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e supondo até haver certa ordem entre os que não precedem naturalmente uns aos outros.
4) Fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que me de assegure de nada omitir.

            Em outras palavras, Morin (2011) refere que todo conhecimento opera por seleção de dados significativos e rejeição de dados não significativos, ou seja, separa (distingue ou disjunta) e une (associa, identifica); hierarquiza (o principal, o secundário) e centraliza (em função de um núcleo de noções-chave); essas operações, que se utilizam da lógica, são comandadas por paradigmas, ou seja, “princípios ocultos que governam nossa visão das coisas e do mundo sem que tenhamos consciência disso” (p. 10). Complementando esta idéia, Cunha (2004) citado em Casarin e Esteves (2010) diz que paradigma é uma realização científica que, durante algum tempo, forneceu modelos de problemas e soluções para uma comunidade de profissionais.

Seguindo esta linha de pensamento, o caminho da investigação segue o pensamento analítico, por isso assistimos à institucionalização do positivismo segundo o qual os objetos são reduzidos e isolados para tentar entender sua complexidade (Gomes, 2008). Concorrendo com essa idéia, Leitão (2009) diz que a ciência, durante muito tempo, buscou o entendimento dos fenômenos através da sua fragmentação (divisão em partes/fragmentos), que cada vez menores, buscavam ser compreendidos na tentativa de através da união dos achados sobre suas partes, entender o que se imagina ser o todo (reducionismo). Também Carvalhal (2002, apud Alves, 2007) vai de encontro com os autores acima citados, dizendo que a ciência guiou-se por uma perspectiva cartesiana, com a tendência de fragmentar o todo em partes, buscando assim um conhecimento mais especializado.

            De acordo com Morin (2011) vivemos sob o império dos princípios de disjunção, de redução e de abstração, cujo conjunto constitui o que o autor chama de “paradigma de simplificação”. Paradigma esse criado por Descartes, ao separar o sujeito pensante (res cogitans) e a coisa entendida (res extensa), e ao colocar as idéias “claras e distintas” como princípio de verdade, ou seja, o próprio pensamento disjuntivo. Segundo Guilherme Oliveira (2004) as idéias subjacentes a esses constructos procuravam a divisão e redução dos fenômenos em partes, para conhecê-los mais facilmente e atuar sobre eles, no entanto, eram desconsideradas a interação das relações.

            Portanto, a simplificação é realizada por redução e disjunção, assim os objetos são isolados entre si e separados do seu meio envolvente, depois são reduzidos a processos elementares, leis, mecanismos, forças, ações, densidades. O objeto é entendido de forma autônoma, substancial, independentemente do seu meio ambiente, onde ele pode ser conhecido somente a partir das suas qualidades intrínsecas. Estas qualidades intrínsecas são as suas propriedades, e que de acordo com o pensamento cartesiano, a partir do conhecimento da constituição do objeto é possível prever o seu comportamento nas mais diversas situações (Montenegro, 2008). Complementando esta idéia, Moreno (2010) citado em Tobar (2013), diz que, para além de analisar e interpretar os objetos separadamente em relação à seu contexto específico, este modelo de pensamento não entende as partes como unidades sujeitas a interações com as outras partes e com seu meio ambiente, pelo contrário, são perspectivadas como partes independentes e passíveis de serem analisadas sem levar em conta o seu conjunto (totalidade e envolvimento) a que pertencem.

            Desta forma, Montenegro (2008) pretende evidenciar que o objeto é compreendido na sua interação com o meio, sendo que a visão cartesiana se encontra distante de uma perspectiva ecológica. Assim, segundo Morin (2011, p. 12), chega-se a inteligência cega. “A inteligência cega destrói os conjuntos e as totalidades, isola todos os seus objetos do seu meio ambiente. Ele não pode conceber o elo inseparável entre o observador e a coisa observada. As realidades-chave são desintegradas”.

            Muitos caminhos e possibilidades surgiram através dessa perspectiva e serviram de ponto de partida para investigações de problemas que hoje são foco de outra forma de se entender a complexidade dos fenômenos. Entretanto, mesmo que tenham sido inegáveis as contribuições do reducionismo, novas perspectivas surgiram como alternativa para dar novas respostas aos problemas (Leitão, 2009). O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por vários anos, durante as quais modelou a nossa sociedade ocidental moderna e influenciou significativamente o restante do mundo (Capra, 1996).

Entretanto, a forma redutora de interpretar os problemas complexos e os procedimentos abstratos tem caído em falência metodológica (Durand, 1979, apud Gomes, 2008), que segundo Garganta (1997) se iniciou mais precisamente na década de 90 e pode ser ilustrado pelo crescente recurso aos conceitos de sistema, auto-organização, caos, fractal, etc. De acordo com Gomes (2008) verifica-se a aceitação e credibilidade crescente da Teoria dos Sistemas e do Pensamento Ecológico, que desenvolve uma linguagem que transcende o reducionismo cartesiano.

A pertinência desta questão pode parecer abstrata ou fútil para o estudo do fenômeno futebol. Contudo, a adoção dos pressupostos convencionais condiciona o modo como pensamos, interpretamos e interagimos na realidade e por isso, no Futebol (Gomes, 2008).


REFERÊNCIAS

Alves, S. M. J. D. “Rotatividade de jogadores” no futebol. Uma relação <umbilical> do como treinar com o como <jogar>. 2007. 440 f. Monografia (Licenciatura em Desporto e Educação Física) – Faculdade de Desporto, Universidade do Porto.

Capra, F. A teia da vida. São Paulo: Editora Cultrix, 1996.

Casarin, R. V.; Esteves, L. A. S. Para se ganhar no futebol precisa-se treinar, mas o que treinar?. EFDeportes.com, Revista Digital – Buenos Aires, Año 14, Nº 142, Marzo de 2010.

Garganta, J. Modelação táctica do jogo de futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipas de alto rendimento. 1997. 318 f. Tese (Doutorado em Ciências do Desporto e de Educação Física) – Faculdade de Ciência do Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto.

Gomes, M. O desenvolvimento do jogar segundo a Periodização Táctica. MCSports, 2008.

Leitão, R. A. A. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. Campinas, 2009. 230 f. Tese (Doutorado em Educação Físic,a) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas.

Morin, E. Introdução ao pensamento complexo. 4. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011.

Montenegro, A. J. S. A necessidade de aumentar a densidade de princípios de (Inter)acção na construção complexa de cada <jogar>. 2008. 254 f. (Licenciatura em Desporto e Educação Física) – Faculdade de Desporto, Universidade do Porto.

Oliveira, J. G. Conhecimento Específico em Futebol. 2004. 197 f. Dissertação (Mestre em Ciências do Desporto) – Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto.

Tobar, J. B. Periodização Tática: explorando sua organização concepto-metodológica. 2013. 436 f. Monografia (Bacharel em Educação Física) – Escola de Educação Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

*Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3876525919577864

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