COLUNA ESPECIAL
AUTOR: Renan Mendes*
A vontade de vencer é importante. Mas a vontade
de se preparar é fundamental
Joe Paterno.
Os Conteúdos do Modelo
de jogo
De acordo com Tamarit (2013, apud Mendonça, 2013),
o Modelo de Jogo é o que acontece regularmente durante o jogar da equipe e que
a identifica. O próprio autor ainda diz que o modelo é a idéia inicial do
treinador adaptada e concretizada à realidade. Portanto, o Modelo de Jogo é o
referencial que deve regular todo o trabalho desde o início da temporada, sendo
irracional pensar em Periodização Tática sem pensar no modelo de jogo (Faria,
1999, apud Casarin e Esteves, 2010).
Assim sendo, deverá fazer parte dos conteúdos desse
modelo os Momentos do Jogo (momento ofensivo, momento defensivo, transição
ofensiva, transição defensiva, esquemas estratégicos ofensivos e esquemas
estratégicos defensivos) e deverá permitir lidar melhor com as características
desses momentos, através dos seus Macro-princípios, Sub-princípios e
Sub-Sub-princípios de jogo, os quais deverão ser os que orientarão todo o
processo desde o primeiro dia da temporada (Tamarit, 2013, apud Mendonça,
2013). É importante frisar que a operacionalização do Modelo de Jogo deve ser
realizada tendo em conta as várias dimensões/escalas: Dimensão Coletiva,
Dimensão Inter-Setorial, Dimensão Setorial e Dimensão Individual (Mendonça, 2013).
Destarte, a definição dos Princípios,
Sub-Princípios e Sub-Sub-Princípios, referentes a um modelo de jogo, delineia
comportamentos e padrões de jogo que devem ser identificadas e manifestadas nos
momentos do jogo (Oliveira, 2004, apud Casarin e Esteves, 2010).
Guilherme Oliveira (1991) e Carvalhal (2000),
citados por Figueiras (2004), referem que o Modelo de Jogo deve ser o
orientador das periodizações e das planificações do processo. Assim, o
Micro(Morfo)ciclo passou a ser ordenado objetivando o desenvolvimento de
Sub-Sub-Princípios, Sub-Princípios e Princípios de jogo, não desprezando,
contudo, o tipo de trabalho muscular mais indicado em cada momento da semana
(Silva, 2010).
O Morfociclo Padrão
De acordo com
Frade (2013, apud Mendonça, 2013) define como Morfociclo porque se cria em cada
semana um ciclo que terá semelhanças (relação) com o ciclo seguinte. Morfo
(forma) porque queremos que aconteçam determinadas configurações geométricas
(formas), mas em função do modo que queremos que os jogadores se relacionem
para a construção do Modelo de Jogo. Padrão porque devemos garantir a todos os
instantes a presença da nossa Idéia de Jogo (o padrão).
O modelo de
periodização tática não visa o pico de forma esportiva porque não é necessário
melhorar em condições máximas as capacidades motoras do jogador (Santos, 2006,
apud Marques Junior, 2011). O mais importante é aperfeiçoar o modelo de jogo da
equipe para permitir uma evolução nos seus patamares de rendimento que visam a
regularidade competitiva ao longo do ano (Marques Junior, 2011).
De acordo com Frade (2013, apud Mendonça, 2013) e
Silva (2008), o Morfociclo (padrão semanal) é o elemento fundamental para a
organização do processo, uma vez que após o jogo analisa e define um conjunto
de objetivos a incidir ao longo da semana. Guilherme Oliveira (apud Silva,
2008, p. 75) esclarece que “o treino é o
principal meio para criar a competição e o jogo que nós queremos, mas a
competição também é muito importante porque nos da indicações para a reformulação
permanente do que temos que fazer no treino”.
De
acordo com Frade (2013, apud Mendonça, 2013), o Morfociclo também deve
contemplar a recuperação e o esforço do desempenho uma vez que no alto nível só
podemos ter preocupações aquisitivas (referente ao desenvolvimento do Modelo de
Jogo) em três dias da semana, caso contrário os jogadores entrarão em estado de
fadiga e não irão imprimir o dinamismo nem o nível de concentração desejado. O
mesmo autor também refere que apenas quatro dias depois de realizarem um
esforço de máxima exigência (o dia do jogo) estão em condições de realizar um
novo esforço de máxima exigência. Em seguida, está exemplificado o Morfociclo
Padrão e a caracterização de cada um dos dias.
Domingo (o dia do jogo)
O jogo
constitui-se num momento fundamental para a estruturação do Morfociclo da
semana entre o jogo anterior e o jogo seguinte, uma vez que é o jogo que
confere sentido ao processo de treino (Silva, 2008; Tamarit, 2013, apud
Mendonça, 2013). Segundo Tamarit (2013, apud Mendonça, 2013), o jogo produz a
todos os níveis (emocional, físico, etc...) um desgaste muito grande. Dessa
forma o Morfociclo que se segue tem como objetivo recuperar a equipe para o
próximo jogo, sem, no entanto, deixar de haver preocupação com o
desenvolvimento do nosso “jogar” (entenda-se, Modelo de Jogo). O mesmo autor
ainda diz que, alguns jogos produzem mais desgaste do que outros e que em
alguns jogos a nossa idéia de jogo será mais bem aplicada do que outros. Tudo
isso deve ser considerado na criação do próximo Morfociclo. Por isso que,
segundo Guilherme Oliveira (apud Silva, 2008), no seu Morfociclo Padrão, a
equipe folga no dia seguinte para que os jogadores se recuperem.
De
acordo com Silva (2008), o jogo constitui-se como um momento fundamental de
controle do processo. Esclarecendo essa idéia, Guilherme Oliveira (apud Silva,
2008, pg. 76) refere que o jogo é uma avaliação onde percebe “se a competição e o jogo vão de encontro ao
que pretendemos e acontece do modo como nós construímos no treino ou se pelo
contrário, a competição não está a ir de encontro ao que queremos, então temos
de reformular o que estamos a fazer”. Sendo assim, o processo de
treino-jogo/competição adquire uma lógica concreta porque assenta no mesmo
sentido, ou seja, no desenvolvimento Específico (ver primeira coluna) do Modelo
de Jogo.
O
próximo adversário que iremos defrontar no jogo seguinte também é importante
para a estruturação do Morfociclo. Podemos, durante a semana que antecede o
próximo jogo, contemplar alguns pormenores estratégicos que irão beneficiar a
nossa equipe nesse confronto, porém, devemos sempre manter a nossa idéia de jogo
inalterada (Mendonça, 2013). Referente a essa idéia, Vitor Frade (apud
Oliveira, 2007) diz que “segundo a lógica
daquilo que eu chamo a periodização táctica, a estratégia é muito importante,
mas ela nunca pode ser em momento nenhum da semana mais importante que os
outros”.
Segunda-feira (Recuperação Passiva)
Na
Periodização Tática, normalmente, o dia de descanso é realizado no dia que se
segue ao jogo. Apesar de que a nível fisiológico o melhor para recuperação é
treinar o mais rapidamente possível depois do jogo, a verdade é que a um nível
emocional (global) é melhor ter um dia de descanso logo a seguir ao jogo, desta
forma o treino de recuperação será dois dias depois do jogo (Mendonça, 2013).
Terça-feira (Recuperação Ativa ou “Específica”)
O trabalho
nesse dia ocorre visando a recuperação ativa dos jogadores, acontecendo num
jogo de menor complexidade (campo menor, menor velocidade dos atletas, menor
desgaste emocional, etc.) (Marques Junior, 2011). Guilherme Oliveira (apud
Silva, 2008, pg. 78) refere que neste dia aborda “alguns sub-princípios que entendemos que devemos <treinar> face
ao que aconteceu no jogo anterior (bem ou mal) e face aquilo que perspectivamos
ser o próximo jogo”. Entretanto, o autor realça que estas situações são
muito descontínuas (com paragens freqüentes), para que os jogadores se
recuperem. Por isso esclarece que promove um “esforço característico do nosso jogo, mas com uma redução muito grande
tanto a nível da velocidade, da tensão e da duração da contração”.
De
acordo com Frade (2013, apud Mendonça, 2013), a recuperação deve acontecer
sobre aquilo que foi responsável pela sua fadiga. Exigindo do organismo com a
mesma solicitação, mas com um tempo muito reduzido que não permita o acentuar
da fadiga. Sendo assim, devemos promover exercícios onde exista muito empenho
instantâneo (Intensidade Máxima Relativa), mas durante um tempo muito reduzido
e com muito descanso entre cada repetição de forma a promoverem-se os processos
de recuperação (Mendonça, 2013).
Carvalhal
(2001, apud Silva, 2008, pg. 78) em um de seus estudos, conclui que a melhor
forma de recuperar é “solicitar as mesmas
estruturas que o jogo requisita, retirando aos exercícios espaço, tempo de
duração e concentração”.
Quarta-feira (Dia dos Sub-Princípios e Sub-Sub-Princípios com Tensão da
Contração Aumentada)
Neste
dia, o treino acontece em uma escala média do jogar (Marques Junior, 2011). De
acordo com Frade (2013, apud Mendonça, 2013) é dia dos detalhes, dia dos
Sub-Princípios e Sub-Sub-Princípios, mas sempre com garantia de que existe uma
densidade significativa de contrações excêntricas levando a um aumento de tensão,
mas em pormenores do nosso jogar. Esse aumento de contrações excêntricas será
assegurado pela existência de grande quantidade de saltos, acelerações,
mudanças de direções, chutes, choques, etc. (Mendonça, 2013).
Guilherme
Oliveira (apud Silva, 2008, pg. 81) diz que na Quarta-feira incide “nos aspectos não tão coletivos mas sobretudo
ao nível dos comportamentos intersetoriais e setoriais”, por isso cria
contextos de exercitação com “um número
de jogadores relativamente pequeno, em espaço reduzido e com um tempo de
duração também reduzido”.
Segundo
Tamarit (2013, apud Mendonça, 2013), é importante notar que apesar de este ser
o primeiro treino dito aquisitivo, a equipe ainda não está totalmente
recuperada do esforço despendido no jogo anterior, por isso, deve-se continuar
ter em conta a necessidade de recuperação neste dia (a todos os níveis). Levando
em conta a preocupação de gerir a fadiga ainda existente e a elevada tensão
específica associada a este dia, revela-se essencial a existência de sucessivos
períodos de recuperação intercalados com as ações de alta tensão. Por isso esse
dia é caracterizado por uma grande descontinuidade (Silva, 2010).
Devido
a essa configuração, os exercícios contemplam situações onde predomina um
regime de esforço com “contrações de
tensão muito elevada”. Além disso, existem muitas paragens porque “há muita pressão e muita rapidez de execução
e por isso, eles fazem e param para voltar a fazer”, uma vez que se
pretende a qualidade dos comportamentos (Guilherme Oliveira, apud Silva, 2008,
pg. 81).
Quinta-feira (Dia dos Macro-Princípios com Duração da Contração
Aumentada)
Neste dia o
jogo ocorre de maneira mais complexa, são abordados os Macro-Princípios de
jogo, em que as referências serão as solicitações exigidas durante o jogo,
sendo muito similar a este (Marques Junior, 2011; Frade, 2013, apud Mendonça,
2013). No entanto, não é necessário utilizar o campo todo, mas este deve ser o
treino menos intermitente de todos (Mendonça, 2013).
A Quinta-feira
é o dia que se encontra mais afastado do jogo anterior e do próximo jogo, e só
neste dia podemos solicitar a máxima exigência dos jogadores (só quatro dias
depois de um esforço de máxima exigência os jogadores estarão totalmente
capazes de realizar novo esforço de máxima exigência) (Silva, 2008; Tamarit,
2013, apud Mendonça, 2013). Sendo assim, Guilherme Oliveira (apud Silva, 2008)
incide, sobretudo ao nível dos grandes princípios e por isso, a dinâmica
coletiva da equipe.
Desta forma,
deve-se treinar a equipe com todos, ou quase todos os setores envolvidos. Este
será então o treino que mais desgaste emocional exigirá uma vez que os
contextos de exercitação são de maior complexidade (Mendonça, 2013). E de
acordo com o referido autor, também será o dia mais parecido com o jogo ao
nível do esforço/desempenho, pois os contextos de exercitação devem realizar-se
em espaços amplos (todo ou quase totalidade do campo), devem envolver um maior
número de jogadores (totalidade ou quase totalidade da equipe) e os tempos de
exercitação devem ser elevados (não esquecendo a necessidade de alguma
descontinuidade dentro da continuidade).
Devido a estes
fatores, o padrão de contração muscular dominante caracteriza-se, neste dia,
por um aumento de duração, velocidade de contração e tensão (Silva, 2011). E
por isso que “a dinâmica destas situações
promove um esforço muito semelhante ao da competição que pretendemos”
(Guilherme Oliveira, apud Silva, 2008, pg. 83).
Sexta-feira (Dia dos Sub-Princípios e dos Sub-Sub-Princípios com Velocidade
da Contração Aumentada)
Neste
dia, a preocupação encontra-se novamente em contemplar a recuperação (a todos
os níveis), porque é um dia que está próximo do jogo e é o dia que se segue ao
dia do treino mais exigente (Tamarit, 2013, apud Mendonça, 2013). Por isso,
Guilherme Oliveira (apud Silva, 2008) aborda fundamentalmente os Sub-Princípios
do jogo ao nível setorial, ou seja, trabalha numa dimensão mais reduzida da
complexidade do jogo.
Entretanto, de
maneira a reduzir a complexidade, sem esquecer que este ainda é um treino dito
aquisitivo, devemos exercitar aspectos já assimilados, aspectos já pertencentes
à esfera do subconsciente (Mendonça, 2013).
Os
contextos de exercitação neste dia deverão permitir que se atinjam contrações
musculares de elevada velocidade, com tensão elevada no início da ação (mas não
durante a mesma), mas com muito pouca duração. Para que isso aconteça, os
contextos de exercitação deverão ter pouca oposição, serão realizados em
espaços reduzidos, terão um número reduzido de jogadores e sua duração reduzida
(Tamarit, 2013, apud Mendonça, 2013).
Sábado (Dia de Recuperação e Pré-Disposição para o Jogo)
Sábado é o dia
que precede o jogo, de acordo com Guilherme Oliveira (apud Silva, 2008)
trata-se de uma pré-ativação para o jogo do dia seguinte. Entretanto, essa
idéia não significa treinar situações abstratas. Portanto, o autor estabelece
como objetivo “recuperar dos dias
anteriores e activar os jogadores para o jogo do dia seguinte” através da
abordagem de “alguns sub-princípios muito
simples”. Também é o dia para aperfeiçoar as jogadas ensaiadas, cobrança de
pênalti e outras atividades que apronte a equipe para a disputa (Marques
Junior, 2011).
De
acordo com Tamarit (2013, apud Mendonça, 2013) neste dia haverá uma revisão do
que se treinou durante a semana, realizando-se contextos de exercitação de
baixa complexidade e que exijam empenhamento máximo, mas em um curto período de
tempo. Este treino também deverá ser muito descontinuo.
Em relação ao
regime de esforço (a todos os níveis), Guilherme Oliveira (apud Silva, 2008)
refere que “visa a recuperação através de
um esforço muito mais reduzido com tensão e velocidade elevadas mas a uma
densidade mínima e com uma duração muito reduzida”. Sendo assim, aborda
algumas situações onde realiza a ativação de alguns automatismos dinâmicos da
equipe, ou seja, de alguns comportamentos que não exigem muita concentração e
que “relembram” os padrões coletivos.
REFERÊNCIAS
CASARIN, R. V.; ESTEVES, L. A. de S. Para se ganhar no
futebol precisa-se treinar, mas o que treinar?. EFDeportes.com, Revista Digital – Buenos Aires, Año 14, Nº
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FIGUEIRAS, L. M. C. Periodização
tátctica: um “conceito com “futebóis” de muitos “rostos”. 2004. 128 f.
Monografia (Curso de Desporto e Educação Física) – Faculdade de Ciências do
Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto.
MARQUES JUNIOR, N. K. Periodização táctica. EFDeportes.com, Revista Digital – Buenos Aires, Año 16, Nº 163, Diciembre de 2011.
MENDONÇA, P. Modelo de jogo do FC Bayern de Munique.
2013.
OLIVEIRA, R. O microciclo de treino: a base fundamental da
planificação táctico-estratégica de um jogo de futebol. EFDeportes.com, Revista Digital - Buenos Aires, Año 12, N° 109, Junio de 2007.
SILVA, M. O desenvolvimento do
jogar segundo a Periodização Tática. MCsports, 2008.
SILVA,
A. Da periodização tradicional à periodização tática: ‘Pontos comuns’ e
diversos e um ‘olhar’ sobre as dimensões do morfociclo padrão. EFDeportes.com, Revista
Digital –
Buenos Aires, Año 15, Nº 148, Septiembre de 2010.